
Um especialista da sociologia da religião diz que no Brasil estuda-se basicamente o declínio católico. Evidentemente, um país que nasce como extensão da cristandade européia só poderia experimentar um declínio do catolicismo ao longo dos anos, ainda mais porque a Igreja nunca teve muitos sacerdotes, a prática formal sempre foi baixa e o catolicismo popular, freqüentemente heterodoxo. Mesmo assim, o catolicismo lançou raízes tão profundas que, por muito tempo após a desregulamentação do mercado religioso, poucos abandonaram a Igreja Católica. Mas nestas últimas décadas a Igreja Católica no Brasil e na América Latina passou por uma situação paradoxal. Por um lado, ficou mais importante globalmente. A América Latina tem mais católicos do que qualquer outra região do mundo. Por outro lado, dentro da América Latina o catolicismo está sendo erodido. Hoje, a América do Sul tem mais católicos do que a Europa, mas a Europa tem cinco vezes mais sacerdotes. E na América Latina a proporção de católicos por padre tem piorado.
Hoje, em quase todos os países da América Latina, o pentecostalismo é a “segunda força” religiosa. (Talvez em alguns países a segunda força seja os sem-religião, uma categoria do censo que não significa somente ateus e agnósticos, mas também as pessoas que não querem se declarar adeptas de uma determinada religião institucional.) A maioria das denominações pentecostais foram criadas na América Latina, e o pentecostalismo tem avançado muito entre os povos indígenas. Provavelmente, os evangélicos em geral (históricos e pentecostais) constituam em torno de 12% da população da América Latina. Dois terços desse percentual são pentecostais; o pentecostalismo é o “mainstream” do protestantismo. Porém, alguns estudiosos já falam de uma crise do pentecostalismo. Essa crise seria de estagnação numérica, de falta de prática (um alto índice de pentecostais não-praticantes) e de apostasia (muita gente deixando as igrejas). E a conclusão desses estudiosos é que, num contexto em que mudar de religião se tornou socialmente aceitável, o catolicismo não consegue manter uma alta porcentagem de seguidores não-instruídos, mas o pentecostalismo também não consegue se tornar um verdadeiro fenômeno de massas porque exige muito em termos morais e sociais. Eu acrescentaria outra possível limitação quanto ao crescimento pentecostal: ele perde prestígio devido à sua capacidade limitada de realizar transformações sociais (ao contrário da sua capacidade impressionante de efetuar transformações individuais).
Entretanto, contra a tese de uma crise no crescimento pentecostal, a evidência sugere que na América Latina em geral (e especialmente no Brasil) o pentecostalismo continua crescendo muito. E embora, de fato, haja muitos pentecostais não-praticantes no Chile, no Brasil a situação é outra (86% dos pentecostais afirmam ir semanalmente à igreja). Além disso, a apostasia muitas vezes é uma fase de vida, especialmente para jovens do sexo masculino, que depois voltam para a igreja. Outro dado importante é que diariamente surgem formas social e moralmente menos exigentes de pentecostalismo. Ou seja, o pentecostalismo se adapta cada vez mais e com isso mantém seu crescimento (mas às custas de sua especificidade!).
O Brasil é a capital mundial do pentecostalismo. No censo de 2000, os católicos eram 73% da população (em termos de adesão nominal, pelo menos), os evangélicos eram 15,5% (os pentecostais eram 10,4%) e os sem-religião eram 7%. Dados mais recentes sugerem que os evangélicos hoje estão em torno de 18% da população e que o catolicismo continua perdendo anualmente mais ou menos 1% da população. Os pentecostais estão desproporcionalmente entre as pessoas mais pobres, urbanas, menos instruídas, do sexo feminino e não-brancas. Os católicos são o contrário: desproporcionalmente ricos, rurais, mais instruídos, do sexo masculino e brancos. O pentecostalismo cresce sobretudo nas zonas de mudança populacional, ou seja, nas periferias das grandes cidades e nas fronteiras agrícolas. Por exemplo, nos bairros prósperos de São Paulo os pentecostais não passam de 5%, mas em algumas periferias chegam a 30%.
Em conseqüência dessa face do pentecostalismo, a própria natureza do catolicismo também tem mudado. Antigamente, ser católico era uma identidade cultural (se é brasileiro, é católico). Hoje, ser católico é uma identidade que tem de ser escolhida e assumida (daí os adesivos de carro com os dizeres: “Sou católico, graças a Deus”). Desde o início dos anos 90, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) discute como reagir a essa erosão numérica, propondo inclusive a imitação seletiva de métodos pentecostais. O problema é que a estrutura e a mentalidade católicas não ajudam. É difícil para uma igreja que já foi nacional admitir que concorre com as outras. Depende-se cada vez mais da Renovação Carismática Católica (RCC) para deter o avanço pentecostal, mas isso parece funcionar mais com a classe média. No entanto, em 2006 uma pesquisa mostrou que 30% dos brasileiros urbanos se identificam com a RCC. Este dado é surpreendente; sabia-se que há muita gente nessa ala da igreja, mas não 30% da população! Muitas pessoas se simpatizam com a RCC, talvez por causa do sucesso dos padres-cantores, e então escolhem essa identidade, mas sem se tornarem praticantes.
E a relação entre o pentecostalismo e os sem-religião? Alguns estudiosos acham que o crescimento pentecostal vai dar lugar à secularização, ou seja, a trajetória das pessoas será de catolicismo para pentecostalismo e depois para sem-religião. De fato, os sem-religião vêm crescendo no mesmo ritmo dos pentecostais e justamente nas mesmas periferias e fronteiras, entre pessoas mais jovens e não-brancas. Mas há uma diferença fundamental: os sem-religião são sobretudo homens, e os pentecostais são sobretudo mulheres. Talvez, então, sem-religião seja o substituto do pentecostalismo para rapazes subempregados e ainda sem responsabilidades familiares. Em outras palavras, seria um luxo temporário, a ser substituído na próxima fase de vida pela domesticidade pentecostal. Ainda não podemos ter certeza a respeito disso. Mas a tese do pentecostalismo como um estágio no processo da secularização também não parece ainda bem fundamentada. Aliás, os poucos dados disponíveis sugerem justamente o contrário: há três vezes mais pessoas indo da categoria dos sem-religião para o pentecostalismo do que o contrário.
Na próxima edição, falaremos do futuro da religião no Brasil e as implicações para as igrejas evangélicas.
• Paul Freston, inglês naturalizado brasileiro, é doutor em sociologia pela UNICAMP. É professor na Universidade Federal de São Carlos.
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